domingo, 5 de janeiro de 2014

Calando a minha boca: o show do Rappa.




 

Ontem fui ao show do Rappa, na praia do forte, patrocinado pela Prefeitura da cidade de Cabo Frio, com amplo acesso.
Confesso que nunca lancei um olhar apreciativo às músicas do Rappa, ouvia, assim, por ouvir. Entretanto, com um olhar mais atento às letras, unido ao fato de ter presenciado o ótimo show de ontem, fui compelida a me posicionar quanto ao estilo musical.
Com arrimo de alguns comentários em redes sociais e conversas com quem já frequentou os shows do Rappa, pude organizar as ideias e escrever a impressão do show de ontem e o conteúdo abordado.
Assim, uma amiga relatou que o show do Rappa em sua cidade, nos idos de 2000, foi realizado de forma restrita, em virtude de ainda não ser conhecido e quem o conhecia não seguia, digamos, os padrões da sociedade. Aquele velho estigma de quem gosta de rock e usa preto representa a revolta, figurando como uma parcela mínima e excluída. Para tanto, o show foi em local fechado e não teve o apelo popular.
A própria designação do nome da banda ilustra a sua origem, rapa é expressão utilizada para policiais quando da interceptação de mercadorias em camelôs. O acréscimo do “p” ganhou um sentido diferenciador.
Hoje, contudo, com várias políticas de inserção, proliferação de informação via internet e a oportunidade em conhecer trabalhos musicais, alguns tabus foram desconstruídos, permeando a chance de conhecer novos focos musicais.
Fiquei impressionada com as centenas de jovens cantando ontem, em couro, as músicas do Rappa, sem titubear, uma energia insólita, quase uma religião. Seguidores ávidos por um momento com seu ídolo, não a pessoa, mas a mensagem que ele trazia em cada verso .
E cada verso tinha sua perspectiva social, cultural e política, o sujeito como parte integrante da sociedade, questionando-a, se insurgindo contra os desmandos daqueles que temporariamente comandam o Estado. Tinha um viés autêntico e legítimo.
Deste modo, aquela realidade relatada pela antedita amiga do show presenciado no ano de 2000 não prevaleceu, o estilo musical alcançou pessoas dos mais diversos segmentos da sociedade, cantavam crianças e idosos, também a galera da marola, o pessoal de preto, que, anteriormente eram considerados excluídos, bem como os trabalhadores e tantos outros de suas luxuosas coberturas. Montada estava ali a sociedade, de seus patamares sociais, curtindo um bom som, com boas oportunidades para refletir, em voz uníssona.
Por isso, mudei minha concepção com relação ao Rappa, minha ignorância foi apartada e, apesar da apresentação ter ocorrido com algumas horas de atraso e ter de suportar empurrões e caras truncadas, o show foi um dos melhores que já vi.
 

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